Com amplo domínio, futebol da Europa manda na Copa do Mundo há quase 20 anos

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Este ano, novamente uma seleção do Velho Continente ficará com o título

Em uma das áreas mais nobres de Moscou, os países sul-americanos criaram uma espécie de embaixada transformada em museu das grandes conquistas de Brasil, Argentina e Uruguai, entre outros. Mas quando a Copa do Mundo terminar, em 15 de julho, o futebol completará seu quarto Mundial com uma conquista europeia e a Conmebol continuará apenas com as fotos de seu passado glorioso.

Com quatro seleções nas semifinais, a Europa se consolida como o epicentro do esporte. Mas o protagonismo inédito dos europeus não ocorre apenas no torneio mais importante de seleções. Isso ocorre também nos Mundiais Sub-20, Sub-17, com os torneios de clubes, além das finanças do esporte e até mesmo no calendário internacional.

Os dados não deixam dúvidas de quem hoje domina o esporte. Se um time sul-americano vencer a Copa de 2022, terão passados 20 anos da última conquista de fora da Europa – do Brasil em 2002. Itália em 2006, Espanha em 2010, Alemanha em 2014 e outro europeu em 2018 estabelecerão o período mais longo da história das Copas sem a conquista de um sul-americano.

O futebol de base, porém, também tem visto um forte domínio europeu, o que aponta que as conquistas podem continuar no nível profissional. No Mundial Sub-20, a França bateu o Uruguai na final, em 2013, seguido pela conquista da Sérvia superando o Brasil em 2015 e a Inglaterra vencendo a Venezuela em 2017.

Entre os clubes, o domínio é ainda maior. Nos últimos 10 anos, todas as edições do Mundial foram vencidas por europeus – salvo em 2012 quando o Corinthians bateu o Chelsea. Centro do poder e do dinheiro do futebol internacional, a Europa forneceu 75% dos jogadores que estavam na Copa em 2018, um número recorde.

Na Uefa, são exatamente esses números que são apresentados à exaustão em toda a negociação com a Fifa e na definição de calendários internacionais. “Temos o melhor futebol do mundo”, insistiu o esloveno Alexandre Ceferin, presidente da Uefa. Desde 1982, quando as semifinais foram recriadas na Copa, 31 dos 40 times que passaram para essa fase são europeus.

Na entidade europeia, a explicação dada para o sucesso tem uma relação direta com os recursos investidos, estabilidade e um plano claro para tornar o futebol uma atividade rentável para, justamente, garantir mais investimentos. Segundo dados da Uefa, 26 das 54 ligas nacionais europeias estão dando lucros. O nível de dívidas dos clubes caiu de 65% em 2011 para 35% em 2017.

Dados da empresa KPMG indicam ainda que os maiores times do Velho Continente tiveram um aumento de seu valor de 3 bilhões de euros apenas em um ano, atingindo um total de 30 bilhões de euros. Impulsionados por acordos de transmissão com valores sem precedentes, os 32 maiores times da Europa viram as suas receitas aumentar em 14% em 2016, em comparação com 2015.

Na avaliação dos europeus, uma das grandes diferenças é que o dinheiro movimentado não fica apenas na elite, já que muitas das federações nacionais e clubes têm a obrigação de investir na base. “Durante estas duas décadas sem ganhar uma Copa, acompanhamos a evolução de clubes e seleções europeias na parte técnica e coletiva e presenciamos a transformação da qualidade de jogo de países como Inglaterra, Espanha, Alemanha, França e Bélgica, por exemplo”, disse Eduardo Tega, consultor técnico em desenvolvimento e inovação no futebol, que atua hoje em Federações na Europa.

Segundo ele, “a Uefa introduziu em 2008 o processo obrigatório de qualificação de treinadores e, em 2004, o Sistema de Licenciamento de Clubes, que é um conjunto de critérios a serem preenchidos para que os clubes possam participar de suas principais competições e que acabou sendo incorporado ao modo como os clubes e as federações Europeias operam e tomam suas decisões”.

“A CBF dará inicio à adoção destes processos a partir deste ano, ainda de forma embrionária, ou seja, com 10 e 14 anos de atraso, respectivamente”, disse. “Estamos atrasados, em média, 3 Copas do Mundo em relação aos europeus, concluiu Eduardo Tega.

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Marcos Motta, advogado e um dos principais nomes da administração do futebol internacional hoje, destaca que a Europa é “o maior mercado do mundo”. “La estão as melhores ligas e os melhores jogadores”.

Sem citar o nome do cliente, Motta contou como um jogador de seleção foi se reunir com dirigentes de um clube europeu. “Na mesa, colocaram dois envelopes. Não eram propostas financeiras. Eram as respectivas tabelas dos campeonatos locais e continentais. A do clube brasileiro, era só jogo de campeonato estadual. A do clube pretendente eram três derbys da maior liga do mundo e dois jogos de Champions League no mesmo período”, disse. “Isso não é demérito do Brasil, mas sim mérito da Uefa e da Liga nacional”, avaliou.

Para Carlos Alberto Parreira, recordista em participações em Copas do Mundo, os números não significam que os sul-americanos deixaram de ser técnicos. “Não acredito numa supremacia técnica europeia”, disse. “Continuamos sendo muito bons”, avaliou.

O ex-ministro dos Esportes, Ricardo Leyser Gonçalves, tem outra avaliação. “Não vejo esse fato como resultado da decadência do futebol não-europeu”, disse, lembrando da queda precoce de Alemanha e Portugal, além da ausência de Itália e Holanda na Copa. Em sua avaliação, Japão e Irã mostram que o futebol está se desenvolvendo em outras partes do mundo. Mas admite que os europeus estão jogando mais parecido com a habilidade dos sul-americanos. “A imigração africana fez muito bem para o futebol europeu”, destacou.

Amir Somoggi, diretor da Sports Value, insiste no aspecto econômico, com a transferência de craques para um só mercado. “Este aspecto econômico impacta diretamente no esportivo”, disse. “Nossa seleção nunca é um time, é um apanhado de bons jogadores, mas que na seleção rendem pouco”, apontou. “Falta uma consciência tática, que sobra aos europeus, que formam cada vez melhores jogadores, e estão nos deixando para trás”, lamentou.

Questionado na última sexta-feira sobre a força do futebol europeu, o técnico uruguaio Óscar Tabárez ironizou: “não me pergunte sobre algo que é evidente”. Segundo ele, “a realidade do ponto de vista financeiro e histórico” não poderia ser ignorado.

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CORRUPÇÃO

Na Conmebol, essa realidade é alvo de um acalorado debate e a eliminação de todos os seus representantes também deixou preocupada a sua liderança. O atual presidente da entidade, o paraguaio Alejandro Domingues, vem insistindo que apenas agora a Conmebol começa a se profissionalizar. Antes, segundo ele, a entidade mal existia.

Ciente da distância cada vez maior em relação aos europeus, ele vem reunindo ex-jogadores e especialistas para debater a situação regional. Mas o raio X revela deficiências importantes, principalmente na formação de base. Por décadas, o dinheiro que deveria ir aos cofres da entidade e distribuídos aos clubes para se fortalecerem acabaram em contas secretas em nome de dirigentes brasileiros, uruguaios e argentinos.

Vários deles acabaram presos. Mas, no processo, sucatearam instituições do futebol sul-americano, jogaram clubes a falência e sobreviviam graças aos talentos individuais de alguns craques, que hoje já não são capazes de fazer a diferença. “Penso que o futebol sul-americano pode se fortalecer. Mas isso precisa ser feito também de fora para dentro. Da Conmebol para suas confederações”, completou Marcos Motta, que se diz otimista com os novos dirigentes.

Da redação:superesportes

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