SETE LAGOAS REALIZA PRIMEIRA SEMANA DA DIVERSIDADE

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Mutirão da retificação de nome é solicitação antiga das pessoas trans em Sete Lagoas.

O Brasil lidera o ranking mundial de países onde mais se mata lésbicas, gays, bissexuais e transexuais (LGBTs). São assassinados mais homossexuais aqui do que nos 13 países do Oriente e África onde há pena de morte contra essas pessoas. E esse tipo de crime vem crescendo no país: foram 130 homicídios em 2000, 260 em 2010 e 343 em 2016.

Em contrapartida, uma pesquisa recente mostra que os brasileiros lideram outro tipo de ranking envolvendo transgêneros: é o país que mais procura por pornografia transexual no Redtube.

Para combater a intolerância e abrir portas para uma nova consciência popular, o Movimento LGBT de Sete Lagoas realiza até domingo a Semana da Diversidade, com atividades variadas.

Engajado na causa desde 2009, o presidente do movimento, Fábio Paiva, diz que milita para que a comunidade LGBT consiga ocupar espaços na sociedade. “No decorrer dos anos venho enfrentando problemas sim, mas o que mais atrapalha é o conservadorismo que está em todas as cidades, todas as esferas, e Sete Lagoas não se difere das outras. Colocam as questões religiosas acima de qualquer assunto, mesmo sendo o Brasil um país laico”, ressalta.

Sobre a violência contra os homossexuais, não há estatísticas em Sete Lagoas que mostrem a real situação. Os atos homofóbicos acontecem, mas as ocorrências não são registradas por motivação de orientação sexual.

Durante toda a semana, várias atividades acontecem na cidade para estimular o respeito à diversidade. “Pretendemos alcançar ações afirmativas nesta semana, levando entretenimento, cultura, lazer, saúde, educação e, principalmente, trabalhando a mentalidade das pessoas, alertando que o preconceito não pode e não deve ser divulgado”, afirma Fábio Paiva.

Para ele, a Semana da Diversidade em Sete Lagoas pode levar informações à sociedade que favoreçam a aceitação e o respeito. “As pessoas rotulam muito a questão dos homossexuais, dos trans, dos bissexuais, enfim, por não estarem preparadas ainda para receber a diversidade, principalmente dentro da família”, avalia. “Simpatizantes da causa querem participar ativamente”, diz Paiva.

Mutirão para reconhecer identidade

mutirão retificação de nome - Foto Fábio Paiva

Pensando na necessidade de as pessoas trans adequarem os nomes às identidades de gênero, o Movimento LGBT de Sete Lagoas, em parceria com a Defensoria Pública, realizou o primeiro mutirão para retificação de registro civil. A ação é uma forma de promover uma real transformação na vida de pessoas que lutam há anos para conquistar o direito de serem reconhecidas pela identidade de gênero e serem chamadas pelos nomes sociais.

Nayara Nery é Miss LGBT Sete Lagoas 2016
Nayara Nery é Miss LGBT Sete Lagoas 2016

Nayara Nery, Miss Minas Gerais G 2006 e atual Miss LGBT Sete Lagoas, afirma que o principal problema enfrentado por ela é não ter o nome de registro condizente com a aparência física.

“Isso me constrange em situações corriqueiras, como ir ao banco e ter o nome do cartão que não condiz com a minha identidade de gênero”. Nayara conta que foi a uma casa lotérica realizar uma transação financeira e o atendente disse que apenas o titular da conta poderia efetuar o saque. “Situações como essas ocorrem todos os dias em consultórios médicos, órgãos públicos, escolas. São situações que nos constrangem”, diz Nayara.

Ela afirma que sempre sentiu falta dessa adequação no nome, mas que isso se tornou mais forte depois de fazer as transformações físicas, entre 17 e 18 anos.

Prêmio Respeito e Cidadania

Respeito e Cidadania - Leo Chaves 3 jpgVários membros da sociedade civil apoiam as causas LGBT, respeitando o ser humano e abraçando os movimentos que lutam pelos direitos minoritários. Essa ajuda foi reconhecida na última quarta-feira com a entrega do Prêmio Respeito e Cidadania pelo MGSeven.

A segunda edição do evento aconteceu na última quarta-feira, no auditório da Casa da Cultura. Aloiz Marinho, criador do troféu, diz que é muito importante reconhecer o apoio da sociedade às causas LGBT. “Este é um prêmio que o MGSeven criou para homenagear as pessoas que estão ligadas às ações de políticas públicas LGBTs de informação, divulgação, conscientização, prevenção, de todo o trabalho que é feito pelo movimento”.

São pessoas, segundo Aloiz, de vários ramos e segmentos da sociedade que respeitam a comunidade e que participam ativamente, apoiando, patrocinando.

Evento terá testes de HIV e Parada LGBT

Prevenção

A Semana da Diversidade inclui ainda o mutirão de teste rápido de HIV Aids. A ação, com uma campanha de prevenção às doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), acontece hoje, das 13h às 17h, na praça do CAT.

Realizada pelo Movimento LGBT com apoio do Centro Viva Vida (CVV) e Secretaria Municipal de Saúde, a iniciativa tem o objetivo de conscientizar a sociedade da importância do uso do preservativo.

Sete Lagoas possui hoje 620 pessoas portadoras do HIV em tratamento.

Programação

As ações continuam no sábado, com a realização de atividades de lazer e esportivas no Parque Náutico do Boa Vista, a partir das 14h.

Parada

E para fechar com chave de ouro a Semana da Diversidade, o ponto alto será a 6ª edição da Parada do Orgulho LGBT de Sete Lagoas.

Neste ano a festa tem como tema: “Não é preciso ser Trans para lutar contra a transfobia”.

O evento será no palco do Parque Náutico da Lagoa Boa Vista, no domingo, às 14h, com atrações artísticas de Sete Lagoas, Belo Horizonte e região, e várias ações de conscientização popular.

Palavra de quem está à frente da luta

“O objetivo desse projeto é lutar contra a LGBTfobia, traçando ações com o poder Judiciário, Executivo, Legislativo, onde possamos conseguir trilhar caminhos e buscar soluções. Estamos atuando em cima dos relatos homofóbicos acontecidos em Sete Lagoas e, desde 2016, conseguimos um apoio maior com o poder público, Ministério Público, Defensoria Pública, órgãos de segurança, polícias Civil e Militar. Então, reafirmo, o nosso objetivo primo é esse, lutar contra a LGBTfobia no município de Sete Lagoas, para que essa população possa ser feliz, conquiste seus espaços, sejam tratados como iguais e não sejam taxados como safados.

Para que a população LGBT possa desfrutar da vida comum no dia a dia, minimizando as dores do preconceito, penso que a educação seja o fator primordial na iniciativa de tudo, pois uma boa educação e um bom entendimento levam as pessoas a respeitarem uns aos outros. É como eu sempre falo: preconceito é falta de conhecimento. Para que nós consigamos ter uma vida tranquila, é necessário que a sociedade entenda que o amor não tem sexo, o que prevalece ao amor é o respeito ao próximo, o carinho, o afeto, a união. Já o poder público pode promover políticas públicas de direitos humanos, evitando que aconteçam atos de violência contra a população LGBT, que o homem trans e a mulher trans tenham seus direitos respeitados, fomentando fóruns, conferências, debates, rodas de conversas, convocando a sociedade para um diálogo, participando de ações, conselhos. Inclusive lutamos para instaurar um em Sete Lagoas. O projeto do conselho tramita na Câmara e deve ser votado em breve”.

Fábio Paiva,

Presidente do Movimento LGBT de Sete Lagoas

Confira a galeria do que já aconteceu:

Por Barbara Dias

 

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